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Direto da Saúde

Uso do FGTS para FIV: Como o Fundo de Garantia pode ajudar a custear a Fertilização in Vitro

  • Adriana Tavares Gonçalves de Freitas
  • 30 de junho de 2025
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FGTS para FIV: é possível usar o Fundo de Garantia para custear a fertilização in vitro!

Guia atualizado em julho de 2026.

O que você precisa saber em 30 segundos

  • Um ciclo de fertilização in vitro (FIV) custa, hoje, entre R$ 20 mil e R$ 175 mil em clínicas particulares — e a maioria dos casais precisa de mais de um ciclo.
  • A Lei do FGTS (Lei 8.036/1990) não cita expressamente a infertilidade, mas a Justiça vem autorizando o saque com base no direito à saúde, à dignidade e ao planejamento familiar.
  • Dá para somar o saldo do FGTS do casal e usar em exames, medicação, coleta, transferência de embriões e demais despesas comprovadas do tratamento.
  • O caminho começa com pedido administrativo na Caixa e, diante da quase certa negativa, segue com ação judicial e pedido de liminar.
  • Com a documentação médica bem montada, o pedido de urgência costuma ser apreciado com prioridade.
A fertilização in vitro deixou de ser exceção — e, para muita gente, virou a única via para realizar o sonho de ter um filho. Segundo dados do setor, mais de 80 mil tentativas de FIV são realizadas por ano no Brasil, enquanto a fila pelo tratamento gratuito no SUS se arrasta: em algumas capitais, a espera passa de cinco anos. Quem não pode esperar acaba pagando do próprio bolso — e é aí que o custo assusta. O que poucos sabem é que existe uma alternativa para financiar esse tratamento: o saldo do FGTS.Neste guia, sem juridiquês, você vai entender como essa possibilidade funciona, qual é a base legal, o que a Justiça tem decidido, quais documentos reunir e quanto tempo o processo costuma levar. É uma orientação técnica pensada para casais e pacientes que estão avaliando entrar com o pedido.

Por que esse assunto está em alta agora

Em 2024 e 2025, decisões em diversos Tribunais Regionais Federais reconheceram o direito ao saque, e o tema ganhou cobertura em veículos como o Valor Econômico. Clínicas especializadas e escritórios têm recebido um número crescente de consultas, e o caminho jurídico está bem mais maduro do que era há dois ou três anos.

1. Quanto custa, de verdade, uma FIV no Brasil

O custo de um ciclo de FIV varia conforme a clínica, a cidade e o protocolo médico. Em média, no mercado privado:
Etapa do tratamentoFaixa de custo praticada (clínicas privadas)
Exames pré-tratamento (hormonais, genéticos, espermograma, ultrassom, histerossalpingografia)R$ 2.000 a R$ 8.000
Medicação para estímulo ovariano (varia conforme idade, reserva ovariana e protocolo)R$ 6.000 a R$ 25.000 por ciclo
Procedimento da FIV (coleta, fertilização, cultivo embrionário, transferência)R$ 15.000 a R$ 45.000
ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoide)R$ 4.000 a R$ 12.000
PGT-A / Teste genético pré-implantacional (quando indicado)R$ 8.000 a R$ 25.000
Anestesia e taxas hospitalaresR$ 2.000 a R$ 6.000
Congelamento e armazenamento de embriões (taxa anual)R$ 1.500 a R$ 5.000
Doação de óvulos / sêmen (quando necessária)R$ 8.000 a R$ 30.000
Útero de substituição (gestação assistida)variável, somando-se às demais etapas
Total realista de um ciclo completoR$ 20.000 a R$ 175.000
A faixa é larga porque cada caso tem variáveis muito específicas: idade da paciente, reserva ovariana, qualidade espermática, indicação ou não de ICSI, necessidade de teste genético pré-implantacional (PGT-A), doação de gametas, útero de substituição e quantos ciclos serão necessários. Em casos de baixa complexidade, um ciclo único pode ficar próximo dos R$ 20 mil. Em protocolos completos, com PGT-A, doação e múltiplos ciclos, o investimento total ultrapassa os R$ 175 mil.E há um dado que pesa ainda mais: a taxa de sucesso de um único ciclo de FIV gira entre 30% e 45%, dependendo da idade da paciente. Por isso, é comum precisar de dois, três ou até quatro ciclos para conseguir uma gestação — o que multiplica, na mesma proporção, a conta final.

Plano de saúde quase nunca cobre

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) não inclui a fertilização in vitro no rol de procedimentos obrigatórios. A maioria dos planos cobre apenas o diagnóstico da infertilidade — e não o tratamento. Existem decisões judiciais condenando operadoras a custearem a FIV em situações específicas, mas essa é outra discussão. Para a esmagadora maioria dos casais, o tratamento sai do bolso.

2. O que a lei do FGTS diz (e o que ela não diz)

O FGTS é regulado pela Lei 8.036/1990. O artigo 20 lista as hipóteses em que o trabalhador pode sacar o saldo: demissão sem justa causa, aposentadoria, compra da casa própria, cidade em estado de calamidade e doenças graves como câncer, HIV/Aids e estágio terminal de outras enfermidades.A infertilidade — e, por consequência, a FIV — não está na lista. E é exatamente esse o ponto: o legislador, em 1990, não previu o tratamento. A Caixa Econômica Federal, que administra o fundo, segue a lei à risca. Resultado: o pedido administrativo, na quase totalidade das vezes, é negado.

Por que a infertilidade é, sim, uma doença

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a infertilidade como doença do sistema reprodutor desde 2009. A Classificação Internacional de Doenças (CID-10) traz códigos específicos: N97 para infertilidade feminina e N46 para infertilidade masculina. Esse reconhecimento é decisivo: ele dá base técnica ao argumento de que negar o tratamento equivale a negar saúde.

3. Por que a Justiça vem autorizando o saque

Os tribunais brasileiros, especialmente os Tribunais Regionais Federais (TRFs), vêm reconhecendo que a lista do artigo 20 da Lei 8.036/1990 é exemplificativa, e não fechada. Em outras palavras: o rol de doenças graves serve de parâmetro, mas não impede o juiz de autorizar o saque em outras situações de saúde igualmente legítimas.A fundamentação se apoia em três pilares constitucionais:
  • Direito à saúde (Constituição Federal, art. 6º e art. 196): saúde é direito de todos e dever do Estado.
  • Dignidade da pessoa humana (CF, art. 1º, III): princípio fundante da República.
  • Planejamento familiar (CF, art. 226, §7º): o Estado deve dar condições para o casal exercer livremente o planejamento familiar, inclusive a decisão de ter filhos.
Soma-se a isso o caráter alimentar do FGTS — é dinheiro do trabalhador, voltado a momentos de necessidade. Diante disso, boa parte dos magistrados entende que travar o saque para um tratamento de saúde com indicação médica contraria a própria razão de existir do fundo.

O que se pode buscar ao judicializar

  • Saque do seu saldo do FGTS, das contas ativas e inativas.
  • Possibilidade de somar o saldo do cônjuge ou companheiro(a), em ação conjunta.
  • Liberação do valor para todas as despesas comprovadas do tratamento: exames, medicação, coleta, fertilização, transferência, anestesia, internação.
  • Pedido de liminar (decisão antecipada) para liberar o dinheiro antes mesmo de a Caixa ser ouvida no processo.

4. O passo a passo, do diagnóstico ao dinheiro na conta

O caminho prático é mais simples do que parece. Em ordem:
  1. Diagnóstico médico claro. Você precisa de um relatório do(a) médico(a) especialista em reprodução humana indicando a infertilidade, o CID, o tempo de tentativas frustradas e a recomendação expressa pela FIV. Sem isso, a ação não anda.
  2. Orçamento detalhado da clínica. Idealmente assinado, com discriminação de exames, medicação, procedimento, anestesia e taxas. Quanto mais detalhado, mais fácil para o juiz autorizar o valor exato.
  3. Extrato do FGTS. Tirado pelo aplicativo da Caixa, mostrando o saldo das contas ativas e inativas. O mesmo vale para o cônjuge, se a ação for conjunta.
  4. Pedido administrativo na Caixa. Protocolado pelo aplicativo ou em agência. Em geral, a negativa vem em até 30 dias — e ela é importante: demonstra que você buscou a via administrativa antes.
  5. Ação judicial com pedido de liminar. Distribuída na Justiça Federal, contra a Caixa Econômica Federal. O pedido de tutela de urgência (liminar) pleiteia a liberação imediata, antes do julgamento final, com base no risco do tempo (idade reprodutiva, janela do tratamento).
  6. Decisão liminar e expedição de alvará. Concedida a liminar, o juiz expede um alvará autorizando a Caixa a liberar o valor diretamente para você ou, em alguns casos, para a clínica indicada.

Ponto técnico importante

A ação corre na Justiça Federal, e não na Justiça Estadual, porque a Caixa é empresa pública federal. Na maioria das comarcas, o juízo competente é a vara federal cível do município de domicílio do trabalhador. Errar essa escolha na hora de protocolar atrasa o processo.

5. Os documentos necessários, em uma lista só

Para montar o pedido com chance real de liminar, reúna previamente:
DocumentoPara que serve
Relatório médico detalhadoComprova a infertilidade, indica o CID, justifica a FIV e relata o histórico de tentativas e exames.
Exames recentes (espermograma, hormonais, ultrassonografia, histerossalpingografia)Sustentam tecnicamente o relatório médico.
Orçamento detalhado da clínicaDefine o valor a ser sacado e descreve onde será gasto.
Extratos do FGTS (do paciente e, se for o caso, do cônjuge)Mostram o saldo disponível e provam que o saque é viável.
Documentos pessoais (RG, CPF, comprovante de residência, certidão de casamento ou união estável)Identificação e prova do vínculo do casal.
Carteira de Trabalho ou contrato de trabalho atualComprova o vínculo empregatício e a titularidade do FGTS.
Negativa da Caixa (quando houver)Demonstra que a via administrativa foi tentada.
Declaração de hipossuficiência ou comprovantes de despesas mensaisReforça que, sem o FGTS, o tratamento fica inviável.

6. Posso usar o FGTS do meu marido ou da minha esposa?

Sim. A jurisprudência tem reconhecido que, em uma família, o tratamento de infertilidade interessa ao casal — não apenas a um dos cônjuges. A ação pode ser proposta em conjunto, somando o saldo do FGTS dos dois. Há, inclusive, decisões autorizando o saque do saldo de um cônjuge ainda que a infertilidade seja do outro.O fundamento é o mesmo: o direito ao planejamento familiar pertence ao casal e o FGTS, na vida prática, é a poupança da família.

7. Quanto tempo leva e quanto custa o processo

É a pergunta mais frequente. A resposta depende de duas coisas: a qualidade da documentação e a vara federal sorteada. Em média:
  • Pedido administrativo na Caixa: de 15 a 30 dias até a negativa.
  • Distribuição da ação: imediata, online, no PJe da Justiça Federal.
  • Análise do pedido de liminar: varia conforme a vara.
  • Expedição do alvará, após a liminar concedida: alguns dias úteis.
  • Liberação do valor pela Caixa: poucos dias úteis após o alvará.
Sobre custas: a ação tem custas judiciais (variáveis conforme o valor da causa), mas é possível pleitear justiça gratuita quando o orçamento familiar não comporta o pagamento. Pedidos instruídos com declaração de hipossuficiência adequada costumam ser acolhidos.

⏳ A janela de tempo importa

A idade da paciente influencia diretamente a chance de sucesso da FIV. Cada ano entre o diagnóstico e o início do tratamento reduz a probabilidade de gestação. Esse argumento, levado ao juiz no pedido de liminar, costuma ser decisivo: esperar todo o trâmite normal pode tornar o tratamento ineficaz — o que justifica a antecipação da decisão.

8. Riscos, limites e o que esperar

Não existe garantia de vitória. A jurisprudência é majoritariamente favorável, mas há decisões em sentido contrário, especialmente em primeira instância. O que aumenta significativamente a chance de êxito:
  • Relatório médico detalhado e personalizado, e não um modelo genérico.
  • Orçamento da clínica discriminado por etapa.
  • Demonstração de que o tratamento é a única alternativa viável (e não uma opção entre outras).
  • Argumentação que conecte a infertilidade ao impacto na saúde física e mental do paciente.
  • Pedido limitado ao valor do orçamento (não pleitear o saldo total se o tratamento custa menos).
Em caso de negativa em primeira instância, cabe recurso ao TRF da região — e diversas dessas decisões têm sido reformadas em favor do paciente.

9. Conclusão prática

Usar o FGTS para custear a FIV é, hoje, um caminho jurídico maduro e em expansão. Não é automático e exige ação na Justiça Federal, mas, com documentação médica bem montada e estratégia processual correta, o pedido de urgência tende a ser apreciado com prioridade. O dinheiro do fundo — que ficaria parado até a aposentadoria ou uma demissão — pode ser usado para aquilo que ele realmente representa: dar segurança ao trabalhador em um momento crítico da vida. E poucas coisas são mais críticas do que tentar formar uma família.Se você está nesse momento, organize a documentação, converse com o seu médico, peça um orçamento detalhado e procure orientação jurídica especializada. Aqui, o tempo é um recurso tão escasso quanto o dinheiro.

Perguntas frequentes sobre FGTS para FIV

É possível sacar o FGTS para pagar a fertilização in vitro?

Sim, pela via judicial. A Lei do FGTS (Lei 8.036/1990) não cita a infertilidade expressamente, mas a Justiça vem autorizando o saque com base no direito à saúde, à dignidade e ao planejamento familiar. O caminho usual é o pedido administrativo na Caixa e, diante da negativa, a ação judicial com pedido de liminar.

Quanto custa um ciclo de FIV no Brasil?

Entre R$ 20 mil e R$ 175 mil em clínicas particulares, a depender da complexidade, da medicação e da cidade — e a maioria dos casais precisa de mais de um ciclo.

Posso usar o FGTS do meu marido ou da minha esposa?

Sim. A jurisprudência reconhece que o tratamento de infertilidade interessa ao casal. A ação pode ser proposta em conjunto, somando o saldo dos dois — há decisões autorizando o saque do saldo de um cônjuge mesmo quando a infertilidade é do outro.

O plano de saúde cobre a FIV?

Em regra, não. A ANS não inclui a fertilização in vitro no rol de procedimentos obrigatórios, e a maioria dos planos cobre apenas o diagnóstico da infertilidade. Há decisões pontuais condenando operadoras, mas para a maioria dos casais o tratamento sai do próprio bolso — daí a importância do FGTS.

Quais documentos preciso reunir?

Relatório médico detalhado (com CID e histórico), exames recentes, orçamento da clínica, carteira de trabalho ou contrato atual, extrato do FGTS, negativa da Caixa (quando houver) e comprovantes de despesas que demonstrem que, sem o FGTS, o tratamento fica inviável.

Quanto tempo demora para liberar o FGTS para a FIV?

O pedido administrativo na Caixa leva de 15 a 30 dias até a resposta (geralmente negativa). A ação é distribuída online no PJe da Justiça Federal, e o prazo da liminar varia conforme a vara — com a documentação médica bem montada, o pedido de urgência costuma ser apreciado com prioridade.

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Adriana Tavares Gonçalves de Freitas

Adriana Tavares Gonçalves de Freitas é Advogada Especialista em Direito da Saúde, com mais de 20 anos de experiência. Membro da Comissão de Direito Médico da Associação Brasileira dos Advogados (ABA), é coautora do livro “Direito à Saúde em Evidência” (Editora Degustar, 2023). Atua em questões relacionadas ao direito à saúde, especialmente em contratos com planos de saúde.

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